26/09/2011

Quem será Elizabeth?

Estávamos dividindo um apartamento. Ou sendo mais direta: - Eu morava no apartamento do Charlie. O prédio era enorme e considerado por muitos um lugar de luxo. Para mim era apenas um bom lar. E isso sim tinha importância.
Charlie e eu éramos bons amigos.Tinhamos uma convivência tranquila e sempre soubemos respeitar um ao outro. Isso pesa bastante, principalmente eu sendo mulher e ele um homem que gostava de várias mulheres e de nenhuma ao mesmo tempo. Charlie era assim. Um "mulherengo" incontrolável. As mulheres da sua vida mudavam rapidamente e diariamente. Como as ondas que batiam nas rochas e logo partiam para outra vir.

Gostávamos de sentar no deck e olhar o mar. Eu bebia um vinho outras vezes vodka. Havia dias que preferia uma simples cerveja. Charlie bebia a maior parte do tempo whisky. Eu percebia que ele buscava na bebida alguma defesa ( ou fuga). Porém nunca me intrometi nisso. Afinal, que sou eu para perturbar os recôndidos da alma de alguém?

Naquela sexta-feira eu estava olhando atentamente o mar. Ou como ele diria: - Estava permitindo que o mar quase me hipnotizasse e comigo conversasse. Ele tirou-me da hipnoze com uma pergunta largada sem conversa alguma nela encaixada:

- Victória, nós nunca ficamos. Isso não é engraçado?

Virei na sua direção. E sorri ao responder: - Charlie não seja ridículo. Somos bons amigos. Moramos no mesmo apartamento. E eu não faço seu tipo. Que só para lembrar você: são as mulheres tipo modelo, com belo corpo e cérebro oco.

Ele riu. Mas insistiu no diálogo. Ao observar seus olhos, notei uma expressão complexa. Ele não olhava até mim. Via mais além. E isso era desconfortante.

- Victória não seja tola. És uma bela mulher. E, como dizes, tem cérebro. Somos parecidos de certa forma. Mesmo você não sendo o tipo de mulher que passa com vários homens....Mas temos muito em comum. Nossas dúvidas do mundo, do objetivo das coisas, do que é realmente felicidade, entre outras, já nos deixou passar a noite toda conversando. Pergunto-me se me daria uma chance de conquistá-la.

- É a coisa mais absurda que ouvi de você em todo tempo que nos conhecemos. E como afirmou, já tivemos longos debates e você já disse muita bobagem. Mas está ganha de todas! A propósito, o quanto já tomou de whisky?

Ele levantou e deu dois passos na minha direção. Automaticamente recuei. Alguma coisa estava errada. Algo estava fora do normal. E nossos olhos deixavam isso claro um ao outro. Ambos não entendiamos aquela sensação. Porém ele não desistia e desafiava a mim como se soubesse ou pressentisse algo a mais do que eu.

- Respondendo sua pergunta: é a primeira dose. Que não toquei ainda, pois te observava, enquanto você por sua vez olhava o mar. A sua resposta então é que nunca me daria uma chance?

-Charlie eu nunca....nunca ficaria com você. - Mal terminei as palavras e senti meu corpo perder as forças. Uma onda de energia passou por mim. E tive a impressão de que havia me multiplicado sem sair do lugar. Como se houvesse várias de mim uma em frente a outra. Como uma fina pelicula. Ou vários reflexos, formando apartir de mim uma fila indiana bizarra de minha própria imagem.

Deixei meu copo cair. Em segundos Charlie estava segurando meu braço. Quanvo vi minhas mãos elas estavam tão claras, como se fosse ficar transparentes e eu logo sumuria. O toque dele estava gelado. Gelado de mais para uma pessoa suportar. Precisava sair dali. Puxei meu braço e corri sem ter pensado onde iria.

Parei perto de umas rochas. Longe de casa e logo ia anoitecer...

As perguntas viam em turbilhão.O que estava acontecendo? Estava tão perdida e assustada em mim mesma que senti nauseas. Sentei.Fechei os olhos e me concentrei apenas no barulho das águas.

Muitas imagens passavam em minha frente. Festas, músicas, lugares, pessoas, conversas incompreensíveis... Estaria sonhando conscientemente? Preciso acordar, eu me dizia...Porém nem tinha certeza de estar dormindo.

Finalmente levantei e tomei o caminho de casa. Fui lentamente. Com sorte, quando chegasse, Charlie já teria retomado seu pouco juízo.

Ele permanecia no deck.Ouvi risos suaves de uma mulher. Bom sinal. Esse era o Charlie que conhecia.

Abri os olhos e tudo que via era o rosto dele e em seguida o céu escuro. Percebi que havia desmaiado. Porém ele sorria tranquilamente. Tentei explicar que me assustei com uma imagem maluca que tive ao entrar no deck. Eu tinha visto a mim mesma sentada. E depois tudo sumiu. Foi assustador. E devia ter algo de errado naquela vodka que tomei...

Eu falava rapidamente e por mais que explicasse ele nada respondia. Ficava sorrindo e impossibilitando que eu levantasse, pois seu corpo estava inclinado sobre o meu.
O empurrei. Não fez nenhum movimento. Tentei com força e ele reagiu:
- Preciso que fique calma, entendeu? Você não quer desmaiar de novo. E quando digo que é você que não quer....FALO DE VOCÊ MESMO.

- O que está havendo aqui Charlie? Você está usando drogas? Colocou algo no meu copo? Tive alucinações. E desde a nossa conversa anterior nada tem feito sentido. Deixe-me sair daqui....Ou...

- Victória, acalme-se. Eu não uso drogas. E sabes muito bem disso. Respire fundo, ok? Está tudo bem.

Irritada dele falar comigo como se eu fosse uma criança com medo imaginários usei minha força e consegui levantar. Embora, certamente ele permitiu.

E lá estava ela. Sentada na cadeira, calmamente, suponho que se quer mexeu-se dali desde o momento que entrei. Segurava uma linda taça cheia de vinho.
Na minha frente estava eu mesma. Trajava um vestido negro, que ia ate seus ( meus?!?) calcanhares. O cabelo movia-se no vento...Sorriu e disse:

- Olá Victória? Como estás? Ah, que pergunta ingênua a minha. Nesse exato segundo sei que estás assustada.Pois o que é presente para você, acaba de tornar-se passado para mim.

E partir desse momento, para que entendas, chamarei de Victória (P) a que vive a circunstância. E de Victória (F) esse ser que havia surgido em minha frente.
Deve ter percebido que P refere-se a presente...e F, um suposto futuro.

Tentando controlar meu pânico me aproximei e toquei os braços de Victória (F). Parecia real...Mas como?

- Sempre vendo e tentando confirmar usando o toque. Descrente...

- Mas isso é impossível!

Ela mostrou-me a cadeira a seu lado: - Victória (P) devia sentar-se. Quem sabe aceita um vinho?

-Você é minha irmã? Só isso explicaria o fato...

- Explicaria o fato de eu ser você? Sabes que não tem irmã gêmea. Alguma outra tentativa para fortalecer sua negação, Victória (P)?

- Isso não é real. É um daqueles sonhos malucos que tenho. Já sonhei que via a mim mesma criança. Agora eu vejo...

- Ah sim, Vic (P), os sonhos. Eu não sou um sonho. Mesmo os sonhos sendo possíveis caminhos e eu podendo estar dentro de um... - Dito isso, ela belisca meu braço fortemente. E solta uma gargalhada.

Ela estava me tirando do sério.

- O que é você? E o que quer?

- Vejamos, Vic (P). Não é "o que". E sim quem. E está claro que eu sou você. E quero simplesmente avisar para parar com essa sua atitude de negação. Quero que converse com o Charlie, pois fugir só irá prejudicar o futuro. E para terminar quero dar-te um presente. O que é ótimo, pois estarei dando um presente a mim...

Só então lembrei de Charlie. Estava parado, observando tudo como se aquela cena tivesse algo de natural. Sua atitude me irritou.

- Charlie, vai ficar ai olhando como se estivesse em frente a uma TV vendo algum programa estúpido? Não tens sangue nas veias? Mesmo num sonho, devia ter uma reação!

Ele esboçou um sorriso. Mas pude ver também uma tristeza.

- Victória(P), eu não sou estúpido. Mesmo tendo agido estúpidamente durante muito tempo. Estou calmo, porque a mim cabe apenas esperar. Não se pode forçar as coisas a correrem no ritmo que desejamos. Por isso venho te esperado. E dito a você muitas coisas nos seus sonhos. Como você disse ( apontou para a Victória (F) ), sonhos podem ser o caminho...

- Charlie, você sabia que isso ia acontecer? Essa locura toda? Sabia quando começou aquela conversa?

- Vic(P), se isso é só um sonho como falaste, como eu saberia algo? Eu existiria? E existindo, qual a diferença se for sonho? Sonhos acabam e você acorda...

Ele tinha razão. Só precisava acordar. Para isso eu tinha que fazer algo. Normalmente uma queda bastava...

Porém, Victória (F) parece ter lido meus pensamentos. E levantou-se falando:

- Não...Não vais pular. Vim até aqui por três motivos. Da sua negação e sobre Charlie já falei. Mas ainda tenho que te dar um presente. Venham comigo, vamos dar uma volta de carro.

- Não pretendo ir a lugar algum. Vou apenas pular, entendeu? Deve ter entendido, pois como disse, nesse segundo, meu presente é teu passado!!!


-Você está subestimando sua própria capacidade! Como disse, não vais pular. Não teme que nada seja sonho aqui?

-Agora, Victória (F) quem subestima é você. Sei que é sonho. Não sei quem Charlie é. Tampouco como vim morar aqui. E quando estava nas rochas, ouvindo o mar, simplesmente tive um sonho dentro de um sonho. E em seguida um falso despertar. Pois ainda sonhava... Nada aqui tem fundamento lógico. E somente sonhos podem fazer isso. Me conhecendo tão bem como insinua, devia saber que tenho uma vasta experência com sonhos conscientes e múltiplos.

- Vic ( P), touché...Muito bem. Agora vamos até o carro.

Tentei realmente pular. Mas ela estava certa. Não conseguia mover-me. Tive de ceder a "mim mesma" e ir ver o tal presente.

No carro, Charlie dirigia. Eu ia a seu lado e atrás...Bom, ia Victória (F). A viagem foi rápida. Nem percebi o caminho. Quando paramos ela desceu.
O silêncio pairava no ar. Charlie segurou minhas mãos. Permiti. Estava ansiosa para despertar e cansada de mais ao mesmo tempo.

A porta ao meu lado foi aberta. E uma caixa depositada em meu colo. Victória (F) sorria : - Sei que vais amar o que há na caixa... - Depois lindamente ela teve sua imagem transformada em vários e pequenos pontos de luz. Até que desapareceu.

Na caixa um pequeno gatinho miava. Coloquei-o no meu colo. Era muito belo e tinha olhos cativantes. O felino lembrava a minha gata...

- Vamos? - Disse-me Charlie.

-Não sei porque direi isso, mas Charlie sinto muito. Se de alguma forma eu...

- Está tudo bem.

- Estou com sono. Sentir sono nos sonhos parece contraditório. - Apoiei-me no banco e fechei os olhos.

Abri os olhos e lá estava ele. Charlie estava sentado ao meu lado na cama.

- Então, mais um falso despertar hein. Preciso acordar.

- Vic, quando acordar escreva como nos conhecemos, está bem?

- Está maluco? É apenas um sonho!

- Elizabeth, vai perguntar como nos conhecemos e acredite ela não aceitará histórias básicas da realidade social. - Ele sorria ao falar...


E então, ai está, querida Elizabeth, a forma como conheci Charlie. Agora me pergunto, quem seria você?

3 comentários:

  1. pelo amor de deus quemmm é elizabeth?
    depois de ler tudo isso tenho que saber.

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  2. Senhor anônimo(a) não aceitei mais seus comentários neste texto pelo simples motivo de que está sendo rude e um tanto maluco.
    É só um texto, ok? Um simples texto. Pegamos uma inspiração e escrevemos. Simples assim.
    Pode encher o blog de comentários, pode criticar ou elogiar se for de sua vontade. Mas nada de estupidez.

    Abraços

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